Eis o tão aguardado álbum. Após o lançamento de "Viver e Cantar" em 2007, não se tinha noção do quanto a música adventista seria inflamada pelo país e que uma das maiores gravadoras seculares do mundo se abriria para o mundo gospel, dando respeito e revelando uma música de qualidade. A grande surpresa foi então a contratação de Leonardo Gonçalves pela Sony Music, recebido por muita gente como bênção e por outra tanta gente como começo da secularização da música 'sacra'. Ninguém sabe qual foi a reação da Novo Tempo ao saber da notícia (claro que alguém sabe), mas ficou estampado na mente dos admiradores do cantor que a gravadora havia perdido uma de suas maiores galinhas dos ovos de ouro e que finalmente o Brasil passaria a conhecer um dos maiores intérpretes da música gospel nacional.
Depois de ter lançado pela Novo Tempo seu primeiro álbum solo, Poemas e Canções, do qual se aproveita duas ou três canções no máximo, Leonardo lança seu último álbum pela gravadora, o fatídico Viver e Cantar que, aproveitando o ensejo, não dá pra se ouvir sem pelo menos estar com o controle do som na mão pra avançar aquele mar de prelúdios, interlúdios e até bônus com direito a música fantasma. O álbum não foi de todo ruim, belíssimas músicas saíram dele como a Moriá, Livre Sou, Livre, enfim e Obrigado. No geral, Leonardo tentou mostrar para o público sua verdadeira identidade como cantor e compositor, um lado além do estilo Soul, algo do tipo "ei, não sei só fazer melismas, sou um poeta!", mas a sede ao pote acabou sendo demais.
Após o fim de contrato com a Novo Tempo, Leonardo assina com a Sony e lança em 2010 o Avinu Malkenu, um sonho antigo do cantor em ter um trabalho em hebraico para a comunidade judaica. Era o momento? Definitivamente não, afinal seu público aguardava ansioso um novo trabalho, queriam sentir a diferença, ter algo novo, mas quem ganhou foi a comunidade judaica. O álbum é de beleza extraordinária, violentamente bem trabalhado e brilhantemente interpretado, porém poderia ter esperado que o cantor se firmasse em sua nova identidade.
"Princípio em Fim" chega em 2012 trazendo, finalmente, a verdadeira essência do cantor. Contrariando o que muitos achavam, Leonardo segue na contramão do gospel nacional e traz um trabalho maduro, elegante e perspicaz, sem a gritaria e alarde de seus colegas também recém contratados. A arte do álbum traz algo poético, romântico e reflexivo, que introduz ao conteúdo. O trabalho tem o toque poético de Daniela Araújo, esposa do cantor, que como todo mundo percebeu, chegou com seu primeiro disco e identidade musical em perfeita harmonia, motivo pelo qual muita gente achou que o CD Princípio e Fim tem a mesma "levada" do CD de Dani. Foi algo ruim? Não, mas é bom separar as coisas.
Começando com um vício do cantor, o Prelúdio (tsion). Orquestra dando um ar de suspense e chegada, com um leve toque de mistério e drama.
Na sequência entra Tsion, de LG, Sião em hebraico. A música traz o sonho de alguém que acordou na Nova Terra, e enquanto observava o cenário, ouviu seu nome sendo chamado pelo Senhor. Música bem calma, ao som de violão e orquestra, numa profundidade encantadora.
Novo, de Tiago Arrais, traz o pop/rock ao álbum. Lançado como single pela gravadora e com direito a clipe gravado na Europa, a música é baseada em Salmo 121:1 "Elevo meus olhos para o monte, de onde me virá o socorro?", mostrando que a morte ainda não é o fim para os que esperam no Senhor. Letra linda numa melodia forte e arranjo apelativo. O cantor coloca em cena sua interpretação pop, uma leve voz rasgada sem melismas exagerados, deixando seu timbre fazer o trabalho. Excelente escolha, acertou em cheio! Não dá pra se negar que é uma música comercial, própria para um single: notas altas constantes e mensagem rápida.
Em seguida entra a carro-chefe de todo álbum. Sublime, de Daniela Araújo, consegue resumir todo o trabalho numa única canção. Com um começo reflexivo em piano e voz, a música mostra alguém que começa a refletir sobre o mundo e anseia pelo dia sublime, onde haverá a calmaria de Jerusalém, ganhando força nos metais e na interpretação vocal, oscilando entre momentos de calma. É o tipo de música que consegue arrepiar e elevar a alma, se bem interpretada. Leonardo conseguiu unir nessa música sua melhor performance vocal, uma letra profunda e um arranjo forte. Não poderia ter sido melhor.
Bondade, de Rafael Brito, é aquele tipo de música em que nada se combina: voz, letra e arranjo. Com o tempo vai se acostumando e a música vai "descendo" com a entrada do côro. A letra clichê, traz a mensagem do amor, bondade com o próximo como forma de servir a Deus. Numa performance ao vivo pode até ser que o cantor consiga impressionar, mas no CD ficou uma incógnita.
Em seguida entra a regravação da música Eu Acredito, de Tiago Arrais, originalmente gravada pelos irmãos André e Tiago Arrais. Se é melhor ou pior? Não dá pra saber. Cada versão tem sua beleza, uma cativa pela simplicidade e boa interpretação, a outra pela orquestra dramática e vocal forte. Pode não ser uma novidade entre os adventistas, mas penso que essa foi uma estratégia do cantor para trazer ao público do gospel um pouco desse mundo fechado da música adventista. Boa, mas não excelente.
Interlúdio!
Viver o Amor, parceria de Daniela Araújo e Leonardo Gonçalves, é outra preciosidade do álbum ofuscada pela Novo e Sublime (onde o CD arranha de tanto se ouvir). A música sem percussão, num piano e orquestra, convida a viver o amor por onde for. EXCELENTE substituta da música Bondade. A performance oscilante do cantor, unida a letra e o arranjo suave traz a paz que só se encontra quando se serve o amor às pessoas. Linda música!
Em seguida, Mente e Coração, quebra a melancolia do álbum e resgata o Soul. De autoria do próprio Leonardo, a música fala de cantar ao Senhor um hino novo. Nada de novo na letra, arranjo numa mistura de Jazz e Blues. Certamente uma boa performance vocal, mas fora do contexto do álbum.
There, parceria de Leonardo e Samuel Silva, é o mimo, o luxo do CD. Gravar música em inglês é uma tarefa arriscada, principalmente na pronúncia. Porque até brasileiro percebe a pronúncia forçada do inglês quando ela aparece. Assim como aconteceu no CD My Refuge de Alessandra Samadello, músicas excepcionais, mas inglês forçado. Nesse caso, Léo arrebentou na pronúncia, arranjo e letra! Conquista pela simplicidade e o toque internacional, em voz e violão. Não é a primeira vez que ele grava em inglês, mas a primeira da discografia. A letra é um show a parte. Traz o argumento de alguém que não está preocupado se o céu terá ruas de ouro ou mar de cristal, se Cristo estiver lá é só o que interessa. Linda, linda, linda!
A regravação da música Jamais, de Felipe Valente, impressionou pela seguinte conclusão: a versão original gravada por Felipe Valente é bem mais encorpada, forte e bem interpretada do que a versão feita por Léo, pelo simples fato de a música ter uma letra forte demais! Léo optou em orquestrar os metais pesados da versão original e acabou se perdendo no meio da música, as cordas cobriram a intensidade e o drama da voz do cantor que eram essenciais nesse momento. A orquestra foi um show e a performance vocal fenomenal, mas a combinação não vingou. Excelente para quem nunca ouviu a original, mas a dualidade é inevitável pra quem conhece.
E, finalmente, a música que dá nome ao álbum: Princípio e Fim, de Felipe Valente, que Léo optou em interpretar num dueto com Daniela Araújo. Uma decisão que resultou num dos duetos mais simples e maravilhosos como se dificilmente encontra por aí. A letra traz a mensagem de alguém que observa o tempo e reflete sobre a eternidade, onde finalmente será entendido o princípio e o fim de todas as coisas. Num arranjo envolvente unido a performance vocal suave de Dani e Léo, a música traz paz e a certeza no descanso eterno ao lado do Senhor. Música fenomenal e escolha perfeita em nomear o álbum. Essa parceria entre Dani e Léo tem nos rendido grandes músicas, de excelente poesia, melodia e arranjo!
Em suma: um trabalho que certamente tirou Leonardo Gonçalves da black music e o jogou num patamar poético, forte e original como dificilmente se acha neste Brasil de meu Deus. Princípio e Fim pode ser considerado um marco divisório na carreira do cantor, onde ele saiu da zona de transição forçada e caótica para uma identidade musical. Um trabalho forte, conciso e brilhante. Fique deOlhO!
Compartilhe!

















